Escárnio ou Maldizer?
Sente-se ao meu lado e vamos conversar... Faz pouco tempo que não a encontro. E você, há quanto tempo não se encontra? Em quais destas encruzilhadas da vida você deixou de encontrar o caminho de volta ao seu lar? Se você fosse merecedora de tudo o que almeja, por que nunca conquistou? Agora diga a mim e, principalmente a você: o que quer conquistar? Por trás destas rugas ao redor dos olhos que se destacam quando ri, e quando chora, existe uma criança acuada que deseja colo e aceitação ou um demônio de asas negras prontas a alçar vôos capengantes? A vida a tornou amarga ou sua amargura enegreceu a vida? Por que teima em inventar lindos contos, enquanto está trancada no quarto escuro de sua própria neurose? Depois de tantas perguntas, imagino-a com um sorriso engessado, sobrancelhas eriçadas, mão apoiada na cintura, enquanto procura encontrar seu eixo, sua coluna, seu ponto de desequilíbrio. Por mais que queira o meu mal, sairei ileso, porque justiça e ética limpam a sujeira jogada por quem aponta um dedo ao alvo e se esquece de que os outros quatro estão voltados à origem do problema. Antes de a maldade ser jogada ao vento, é cultivada em seu próprio peito. Por mais que doa em mim, nada é mais pungente do que ocorre em você. Vamos falar um pouco sobre a nossa solidão? Digo “nossa”, porque sim, para sua surpresa, às vezes também sou sozinho. Tal característica é natural de quem busca seus ideais, porque a idealização é conseqüência do que vem de fora, mas precisa ser lapidada internamente, ou seja, também há um exercício solitário. A nossa diferença é o que fazemos depois. Enquanto um quer exercitar o que aprendeu, o outro quer ensinar o que exercitou. Ao achar que me julgo “um deus” por seguir a justiça, não estaria você mesma assumindo este papel, querendo sobrepor seu exercício à legalidade? Pois saiba que somente Deus está acima das leis dos homens e, definitivamente, este cargo você não poderá ocupar, ainda que utilize seus meios mais sórdidos. Sua maior denúncia é aquilo que seus olhos não conseguem esconder: a infelicidade, a frustração, a inveja, o desejo incondicional de querer o que não pode ter. Saiba que nem sempre as rugas são sinal de conhecimento, caso contrário, o escroto (vulgo saco) seria a enciclopédia britânica. Aprenda com esse moleque, assim como aprendi com você: não podemos adaptar a vida a nós mesmos, mas podemos nos adaptar a ela. Você não é a única no mundo que precisou renunciar um sonho. Siga sua vida e seja feliz. Deixe-me seguir em paz. Ainda há tempo.
Escrito por Luiz da Silveira Neto às 01h22
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Matilha
Hoje não quero estruturar texto, não quero usar palavras bonitas, não usarei artifícios literários. Quero ser racional, à beira do insensível. Quero ser um defunto escritor. Meus dedos escrevem, meu cérebro dita e nada mais. Quero que minhas palavras sejam secas e reais tanto quanto a realidade, que desconheço por completo. Sou apenas um número de RG e um número de CRMV. Segue abaixo o relato. Maria C. é deficiente visual, aposentada, miserável e cuida de um neto com cerca de três anos da idade. Após a morte de seu bisavô, o menino sentiu-se muito sozinho. Maria C. adotou uma cadelinha, que passou a ser chamada de Belinha. A família tornou-se composta por avó, neto e cadela. Todos compartilhavam da mesma cama. Belinha foi atropelada. Maria C. levou o animal a um médico veterinário, que solicitou uma radiografia e prescreveu vitaminas. A proprietária não pôde pagar a radiografia, mas se esforçou em comprar as vitaminas. Três dias após a consulta, Belinha apresentou febre e parou de se alimentar. A proprietária pediu ajuda. A médica veterinária recomendou carne moída. Decidida a ajudar um membro de sua matilha, Maria C. expõe seu dilema financeiro ao neto: _ Filho, se importa de tomar leite num outro dia? A vovó precisa comprar carne para a Belinha. O neto aceita. Belinha come carne. O neto espera o leite. Belinha melhora. Todos sobrevivem. Belinha teve carrapato há meses atrás, pode estar com babesiose e/ou erliquiose – “doença do carrapato”. Provavelmente, tratarão a cadela, mas resta saber qual será o alimento excluído do cardápio desta vez. Além disso, é possível que Belinha tenha leishmaniose e que seja sacrificada em breve, como preconiza o Ministério da Saúde. A família perderá mais um membro, mas pode reduzir o risco de contrair leishmaniose humana, visto que provavelmente não adota uma alimentação saudável tampouco tem uma assistência médica próxima do ideal. Infelizmente, o cão do vizinho poderia estar infectado também. Desta forma, mesmo matando a Belinha, a família ainda poderia não estar completamente segura. A morte do animal seria em vão? Se por infelicidade a família, pertencente ao grupo de risco, tornar-se infectada, oremos para que o diagnóstico não seja equivocado. Infelizmente, a leishmaniose humana parece ser apenas uma lenda. Ainda é uma das últimas suspeitas clínicas a não ser em casos cujas lesões sejam idênticas àquelas encontradas em fotos de livro. Pessoas morrem. Animais morrem. Falta leite.
Escrito por Luiz da Silveira Neto às 21h49
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Bandeirante
Nesta semana, constatei que quanto mais se estuda, mais se expande o conhecimento acerca do que é teórico-prático, porém a realidade torna-se uma vitrine: quando é interessante, avalia-se o produto; caso contrário, segue-se em frente. Dificilmente experimenta-se o que é desagradável aos olhos. Ledo engano! Às vezes, o desagradável visto de perto se torna um espetáculo bizarro, porém um verdadeiro espetáculo! É sobre isso que vou escrever hoje. Ontem, visitei uma região miserável aqui de minha cidade (Birigui, interior de SP). É um bairro muito famoso devido a essa característica, dentre outras menos lícitas. O boca-a-boca sobre os acontecimentos naquele local e uma rápida visita de carro, feita por aqueles que ali não param, tornam pseudoexpertos birigüienses ávidos por assumir o valoroso título “Mente Aberta”. Reconheço que faço parte desta massa e, ultimamente, tenho questionado meu verdadeiro potencial de visão de mundo. Nada melhor do que pisar em fezes humanas presentes em um quintal repleto de lixo para constatar que a realidade particular fede muito mais do que as suposições acerca de algo à beira do folclórico. Devido à criminalidade naquela região, esperava uma hostilidade durante as visitas casa a casa. Eis que surge o primeiro aprendizado: sou preconceituoso. Após duas ou três visitas, já estava convencido de que os humanos do “submundo” são mais humanos do que os “subumanos” do “mundo oficial”. São pessoas simples, educadas de uma maneira peculiar, respeitosas e olham nos olhos, mesmo quando tem algo a esconder. Reconhecem que tem suas imperfeições mais íntimas. São autênticos, embora, infelizmente e injustamente, sofram de uma baixa autoestima crônica. Frases como “pode entrar ‘fio’ (filho)” e “o senhor não está me incomodando, não” eram muito freqüentes, para não dizer unânimes. O mesmo é válido para outras áreas, as quais o caro leito já visitou? Há uma grande diversidade entre os quintais. Havia locais extremamente limpos e organizados, semelhante àqueles de pessoas que sofrem de TOC relacionado à limpeza, mas também havia locais com diversos tipos de lixo orgânicos e inorgânicos acumulados. O que mais me chamou a atenção foram as fezes no chão batido. Aglutinando o linguajar direto daqueles moradores, pergunto a vocês, digníssimos leitores, quem já cagou no quintal de casa? Ali, a céu aberto, contemplando as estrelas, enquanto conversa com o vizinho sem muros... Seria algo grotesco! Parece que o mundo tornou-se uma colcha de retalhados cosida por muros inexistentes. Em uma das residências, encontrei um papagaio que apresentava sinais neurológicos e muita diarréia. Estava todo molhado, revirava os olhos, balançava a cabeça, abria o bico... Ao lado deste animal, uma mulher com dificuldade de dicção relatava suas seqüelas deixadas por um AVC. Confesso que minha atenção dividia-se entre os dois indivíduos com sinais neurológicos, assim também como confesso que suspeitei de que tal AVC possa ter sido causado pela doença daquele papagaio, uma possível zoonose. O mais interessante de tudo isso é que fui o único a notar que ambos apresentavam sinais clínicos semelhantes. Estaria eu impressionado com todo aquele ambiente e imaginando coisas? Talvez... Outro fato curioso foi a presença de verdadeiros labirintos escondidos no interior das quadras. Havia pequenos portões voltados para a rua, percorriam-se pequenos corredores que mais pareciam veias e artérias. Ali, no coração, havia pequenos cômodos ocupados por numerosas famílias, que dividiam um único banheiro. As portas eram de madeira rústica, que mais pareciam porteiras. Não havia maçaneta, mas correntes e cadeados. Em meio a toda essa miséria, havia um infindável aglomerado de escombros: tijolos, telhas, vidros, madeiras..., por vezes chamuscados. Contaram-me que são ruínas de casas abandonadas há muito tempo atrás. Os restos ainda estavam ali, como se ninguém se importasse. Era o desabamento de famílias. Descaso e resignação. Entrei em uma casa abandonada. O portão era uma placa de ferro encostada na parede. Não havia porta nem janelas. Era tudo aberto. No interior, havia tanta poeira que mal se identificava o tipo de piso, acredito que seja feito de chão batido mesmo. Havia um sofá velho e diversas latas de refrigerantes estrategicamente amassadas e furadas. O quintal era coberto por capim alto, que circundava um imenso abacateiro. Em meio a este ambiente urbano-rural, no coração isquêmico da cidade, um banheiro sem porta exibia a privada repleta de fezes. Relataram que desconhecem o dono de tal “casa”, invadida por pessoas para os mais diversos fins. Em meio a tantos paradoxos, de tantos cenários alheios de meu cotidiano, senti-me seguro naquele lugar. Notei que a miséria aproxima as pessoas. É claro que há relatos de vizinha que foge com marido de melhor amiga ou de filho que rouba botijão de gás para comprar uma pedrinha misteriosa, mas vigora um código de normas e condutas que estabelece a ajuda mútua com o intuito de amenizar os problemas daquela região. As visitas visavam à educação, explicar sobre as medidas preventivas contra o Dengue, mas o catequizado fui eu. Pretendo voltar àquela vila e fazer o meu trabalho, mas até então, estava despreparado para qualquer tipo de orientação. Como posso ensinar sem antes saber a real necessidade de meu destino?
Escrito por Luiz da Silveira Neto às 12h38
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História de Anna A. - Carona na Carona
Essa história de escrever um “perfil” de Orkut é meio estranha. Não ando para perfis ultimamente. Perfil lembra-me um busto voltado de lado exibindo um delineamento repleto de efeitos de luz e sombra. É uma metonímia! O bom mesmo é avaliar a imagem como um todo. A beleza está nos detalhes desde o movimento mais sutil de pincel até as fraturas causadas pelas intempéries. Por isso, decidi pelos próximos dias ou talvez só hoje – ando inconstante – escrever situações que tenho vivenciado. Deixo aos meus amigos a liberdade de minha descrição, afinal a vida é assim: por mais que se diga e que se faça, os quesitos leitura de mundo e interpretação definem os personagens dessa divertida e complexa história. Ontem de manhã estava fumando um cigarro em frente ao prédio onde trabalho. Era um momento “relax”. Olhava para o céu e tragava... Olhava para o chão e tragava... Dedilhava o cigarro e tragava... Às vezes, não havia nem cinzas, mas por alguma ansiedade que não sei de onde vinha, fazia questão de bater o cigarro com a ponta dedo. Em meio a essa cena bem fútil, eis que surge uma senhora de mais ou menos uns 75 anos de idade. Vinha em minha direção e parecia um pouco perdida. Por notar seu desconforto e por nutrir uma simpatia incondicional por idosos, resolvi sorrir e encará-la, assim me deixava à disposição. Ela, um pouco tímida, chegou bem perto e eu disse: - Oi! Tudo bem com a senhora? - Ah! Mais ou menos! Estou perdida! Vim colher sangue e agora preciso voltar correndo pra casa pra fazer almoço pro meu marido_ disse sorrindo de uma maneira desconfortável. Novamente, traguei o cigarro e sorri. Senti-me estranho. Coloquei-me à disposição, mas o que poderia fazer? Não adiantava só ser simpático. Isso não resolveria o problema. E ela continuou: - Tem alguma viatura pra me levar pra casa? Pensei: “que safada!”, mas ao mesmo tempo admirei a iniciativa. Parece que o orgulho é inversamente proporcional à idade, talvez por isso os idosos sejam mais inteligentes... Fiquei tocado com a situação. Lembrei-me de minha falecida avó. Até tinha os traços parecidos: magra, baixa, cabelos louros e um sorriso cativante. Sem pensar duas vezes, disse que procuraria alguém dentro do prédio que seguisse um caminho próximo ao destino daquela senhora. Dei dois passos e pensei duas vezes, disse: - Vou levar a senhora! Abriu um sorriso de orelha a orelha e até esboçou alguns pulinhos. Considerando os limites do tempo, ouso comparar ao duplo twist carpado de Dos Santos. Imediatamente, aprendi a minha primeira lição: quase tentei ajudar uma pessoa transferindo seu problema a outrem. Voltaria para minha sala todo contente por pensar ter ajudado alguém, mas no fundo, pouco teria feito, o que seria uma atitude mesquinha de minha parte. Preciso reavivar minha memória, porque talvez isso tenha sido uma prática constante até então. Apaguei meu cigarro e rumamos ao meu carro, que estava estacionado logo ali. Abri a porta para ela, liguei o ar condicionado e coloquei a música “Dona Cila”, de Maria Gadú, escrita para sua falecida avó. A intenção era criar um ambiente confortável, imaginei o cansaço daquela mulher e, ao mesmo tempo, seu estresse por estar tão longe de casa, naquele calor infernal e, ainda por cima, ter a responsabilidade de cozinhar para seu marido. Poucos metros depois, perguntei seu nome e me respondeu de maneira agitada: _ Anna A.! Vou preservar o sobrenome, mas achei interessante a sua atitude. Por que falar o sobrenome? Seria simplesmente um hábito? Seria uma tentativa de identificação pessoal mais detalhada? Seria uma pessoa acostumada a preencher formulários? De qualquer maneira, imaginei a seguinte cena: uma fila imensa, calor, pessoas suadas e cansadas, identificando-se num balcão branco de repartição pública. Não sei por quê... Disse que meu nome era Luiz e continuei dirigindo. Falamos sobre a dificuldade que seria fazer aquele caminho a pé. A maior parte do trajeto era uma subida íngreme, nada agradável de ser encarada naquele sol escaldante. De repente, notei que Anna A. ficou tensa, porque não reconhecia o caminho de casa, embora tenha dito o endereço. Expliquei que era um atalho e mais ou menos aonde chegaríamos por ali. Pisei um pouco mais forte no acelerador a fim de chegar mais rápido e assim ficaria mais tranqüila. Continuamos com a conversa e ela ria de maneira estranha, um pouco nervosa, enquanto sua mão batia na porta, acompanhando o compasso de “Dona Cila”. Finalmente chegamos à avenida e comentei todo sorridente: _ Viu só, Dona Anna? Chegamos à avenida perto de sua casa! Reconhece esse lugar?
_ Não! _ respondeu rindo de maneira ainda mais nervosa. Confesso que fiquei tenso. Será que Anna A. sofria de algum problema? Será que realmente sabia onde mora? Será que ao invés de ajudar alguém, havia me metido numa tremenda enrascada? Acelerei mais ainda e tentei confirmar o endereço: _ Dona Anna, sua casa fica perto da fábrica X, aquela que fica perto do escritório Y, perto de uma madeireira Z? Ela não soube me responder. Pisei ainda mais no acelerador, engoli a seco e já comecei a rezar para estar no caminho certo e, principalmente, para que Anna A. não estivesse completamente enganada sobre seu próprio endereço. Poucos metros depois, no semáforo, justo no semáforo onde eu não poderia virar à esquerda, ela solta um grito felicíssimo: _ Ali! Minha casa é naquela rua ali! Vira! Vira! Aliviado, respirei e disse: _ Dona Anna, não posso virar nesta rua. Veja aquela placa ali. Vou seguir mais uma e faço o retorno. Eu sabia que ela não havia entendido nada do que se passava. Como o clima já estava tenso, fiquei muito preocupado com a sua reação e dito e feito. Virei numa rua para fazer o retorno, de repente ela segura na porta e começa a gritar: _ Pra onde está me levando? Me deixa aqui! Quero ficar aqui! Meu sangue sumiu. Pensei: “pronto! Agora essa senhora vai gritar por socorro, vão pensar que sou um tarado e tudo isso começou por causa de uma iniciativa que se sabe lá de onde surgiu! Onde você se meteu, Luiz?”. Respirei fundo, sorri sutilmente (não poderia ser um sorriso largo, porque pensaria que sou um tarado, mas também não poderia ser um sorriso amarelo, porque pensaria que sou um “serial killer” de velhinhas) e com uma voz mansa e dicção pausada, respondi: _ Calma! Já estamos voltando para a avenida. Veja! Chegamos! Logo vamos chegar à sua rua. Diga onde preciso virar. Finalmente, ela solta mais um grito: _ Aqui! Pode virar aqui! Essa é minha rua. Se quiser me deixar por aqui, tudo bem... Como já tinha embarcado na aventura, fiquei curioso pra saber se ela realmente sabia seu próprio endereço. Resolvi, agora por uma questão de honra, deixá-la bem em frente à sua casa. Foram cerca de 500 longos, tensos, densos e viscerais metros! Chegamos! Ela agradeceu, me abençoou, abriu seu portão com a chave e entrou toda feliz para fazer o almoço de seu marido. Ao voltar para o prédio onde trabalho, às gargalhadas de alívio, senti um dever cumprido por conduzir aquela mulher cansada, porém lúcida até sua casa. Os traços de senilidade foram substituídos pela força de uma idosa, que disposta a não encarar o sol escaldante e, ao mesmo tempo, chegar a tempo para fazer o almoço de seu marido, sujeitou-se a pedir carona a um estranho, que de lúcido talvez não tenha nada.
Escrito por Luiz da Silveira Neto às 22h25
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... Estranho...
Olho para o cursor, que pisca intermitentemente na página ainda imaculada. Meu cérebro coça. Impulsos acendem as sinapses feito vaga-lumes e percorrem por cada fibra do meu Sistema Nervoso. Penso não só com o cérebro, mas com o corpo. Embora esteja em plena atividade psíquica, a linguagem utilizada ultrapassa a cognição. É como se o mundo fosse desbravado e ao mesmo tempo ocultado dentro de mim, em sigilo, alheio a minha própria vontade. São duas pessoas em apenas um corpo. Quero escrever! Quero traduzir meus sentidos em palavras coesas, porém o cursor continua piscando e, embora a página já não esteja mais em branco, é como estivesse, pois minhas palavras ainda não dizem nada.
A discordância entre o pensamento voluntário e aquele que perdura alheio a nossa vontade nos remete à hipótese de que possamos ser submetidos a nós mesmos, ou seja, como se por instantes houvessem dois seres em apenas um corpo. Um exemplo típico é quando uma música toca incessantemente em nosso pensamento e, apesar de querermos esquecê-la, mantém-se em plena atividade. Nota-se que, em algumas circunstâncias, estímulos intrínsecos tomam o controle da mente. O fato de, em determinados momentos, não termos total domínio sobre nossos desejos é algo assustador, mas obviamente, sob condições fisiológicas, conserva-se os limites comportamentais.
Há algum tempo notei que somos incapazes de usar os cinco sentidos ao mesmo tempo. Se quiser, pode fazer o teste. Está sentado numa cadeira, lendo esse texto confuso e, por alguns momentos, talvez sua audição, seu olfato ou sua gustação tenham ficado em segundo plano. Pode argumentar, dizer que tal fato só ocorre porque você estava com sua atenção voltada somente para a leitura, por isso sua visão está se destacando dentre os demais sentidos. Porém, proponho um desafio: deseje utilizar os cinco sentidos ao mesmo tempo: visão, audição, gustação, olfato, tato. Pode enxergar de forma eficiente, mas para ouvir precisará desfocar a imagem que estiver a sua frente ou mesmo que consiga manter a visão inalterada e ouvir plenamente, não sentirá o sabor de sua saliva nem seu corpo tocando a cadeira nem o cheiro de sua sala e, desta forma, ora valorizando ora depreciando um ou outro sentido, é incapaz de ter, ao mesmo tempo, a eficiência plena. Se podemos reprimir um sentido para realçar outro, não seria aceitável a hipótese de que possam haver outros sentidos raramente utilizados ?
Qual é a minha intenção diante dessas observações? Sinceramente, eu não sei. O cursor continua piscando diante dos meus olhos. Não sei se atingi meus objetivos, ou não, após ter escrito esse texto. Também não sei o que me levou a escrever. Talvez seja a angústia de ver um cursor piscando há tanto tempo diante dos meus olhos. Talvez eu tenha ficado hipnotizado. Talvez eu esteja supervalorizando idéias que, no decorrer do texto, de inteligíveis passaram a expressar algum sentido e voltei a ser apenas um em um só corpo. Talvez finalmente eu tenha ficado louco de verdade... Não sei.... mas é estranho, não é ?
Escrito por Luiz da Silveira Neto às 21h19
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É... hmmm... tipo... Oi! Depois de tanto tempo sem postar, fico até envergonhado por retornar à atividade (pelo menos espero que seja um retorno definitivo). Ando sem inspiração para escrever, meu texto provavelmente seria voltado para a personificação de algumas moléculas ou analogias com os vários sistemas do organismo, em outras palavras, estou ficando bitolado. Desta forma, não sei se agradaria aos leitores e, sinceramente, sequer me agradaria. Já não tenho absoluta certeza se a imagem que eu fazia dos meus textos era realmente condizente com que representam ou se era apenas uma ilusão, uma vaidade, uma supervalorização. Decidi, então, dar espaço a uma escritora de verdade, seu nome é Marina Colasanti e o nome do seu "filho" é "EU SEI, MAS NÃO DEVIA". Espero que gostem....
Eu sei, mas não devia. Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol , esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo de viagem. A comer sanduíches porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz (...)
Escrito por Luiz da Silveira Neto às 11h05
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(continuação...)
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir telefone: “Hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo que deseja e o que necessita. A lutar para ganhar o dinheiro com que se paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar muito mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural, às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães , a não colher fruta do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só o pé e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se o fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre o sono atrasado.
A gente se acostuma para não ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que de tanto se acostumar, se perde de si mesma.
Bom... espero que tenham gostado. Um grande abraço.
Escrito por Luiz da Silveira Neto às 11h05
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Encontro Diet
O texto abaixo foi escrito quando eu freqüentava o curso pré-vestibular, ou seja, a dois anos atrás. É uma intertextualidade entre dois romances, que infelizmente não lembro os títulos. Essa narração foi escolhida porque fala sobre amor, desencontros, diferenças... Esse assunto nunca é demais, melhor ainda quando encarado com bom humor. Espero que gostem...
Encontro Diet
Noite de Carnaval: samba, fantasias, tambores... Catapulta tem batuque, atabaque, tamborim...Tico-tico toca gaita, cata gato no capim... Salão repleto de pessoas estranhamente alegres, sendo a única certeza, a incerteza de como a noite terminará. Serpentina, Colombina, purpurina, brilhantina, gente, gente, gente, salão encrespado de gente: andando, correndo, pulando, gritando, cantando, ronronando... Em meio a tantos foliões, há várias histórias passadas, futuras ou atuais e é exatamente isso que gerou o motivo desta narração. Já lhe ocorreu que neste exato momento possa estar passando a pessoa dos seus sonhos em frente a sua casa ou então lhe perguntou que horas eram naquela manhã de sábado quando você tinha por volta de dez anos ? Apesar de parecer impossível, posto que o mundo é um gigante, as pessoas nascem entrelaçadas e, por mais diferentes que sejam, não há como escapar. Cessemos por momentos a reflexão e voltemos à narração.
A noite era apenas mais uma em meio a tantas outras frias e solitárias para das Dores, mulher magra, sem carnes apalpáveis, miserável, cabelos em forma de moita que utilizou o cérebro como fertilizante, uma imensa verruga no nariz sorrindo para as pessoas... Pobre das Dores, sua bondade quase compensava a escassez de beleza.
Calor, calor, calor, muito calor ! A chance de conquistar a prima do amigo rico não poderia ser jogada ao léu. Era a vez de Clodovil Pereira, homem de bom papo, culto, pé de valsa, mas, também, careca, malandro e interesseiro, conquistar seu lugar ao sol, ainda mais usando uma peruca gigantesca... com esta cabeleira, nada poderia dar errado...
Cada personagem seguia seu destino. Das Dores estava sentada, segurando as sandalhas surradas que ganhou da madrinha, olhava a tudo com um olhar vago, entediado, como se procurasse algo que nunca havia perdido; enquanto, Clodovil Pereira dançava e fazia gracejos à bela donzela rica. Até então, o lago da vida estava espelhado, liso, imóvel, mas um imenso meteoro rumava em sua direção, pronto para agitar suas águas e torná-las instáveis, deliciosamente instáveis.
O rapaz, muito astuto, resolveu comprar uma bebida à acompanhante para deixá-la mais acessível aos seus encantos e, na mesma hora, das Dores caminhava pelo salão como se sentisse uma força de atração, fazia de seu coração uma bússola, dava passos seguros rumo a algum lugar que não sabia onde era, mas sabia exatamente aonde chegar: logo ali. Para sua surpresa, avistou ao longe um rapaz de cabelos iguais aos seus: vistosos, armados, com um penteado estilo algodão doce. Ah, como é doce ! Dirigiu-se ao misterioso pavão e mostrou-lhe todos os dentes, Clodovil Pereira não entendeu o motivo pelo qual tanto desabrochar de sorrisos, virou-se de costas e foi ao encontro da moça rica. Pobre das Dores, era tão boazinha... ficou desapontada diante de tanta frieza. Novamente insegura, foi embora para casa.
Pois bem, nobre leitor, seria este o orgasmo desta narração: o encontro de dois mundos distintos que por momentos pareceram-se tão iguais. Não se pode dizer que é um final romântico, posto que Clodovil Pereira e das Dores não ficaram juntos, mas afirmo que, por um instante, a moça de cabelos rebeldes viu seu reflexo e não se sentiu sozinha. Parece decepcionado diante do desfecho simplório, mas nem sempre a vida é doce, afinal de contas, há diabéticos. Contentemo-nos apenas com o encontro entre os dois desconhecidos, mas continuo acreditando que as pessoas nascem entrelaçadas e que a vida é extremamente romântica.
Escrito por Luiz da Silveira Neto às 21h08
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Viva a Loucura!
Há algumas semanas li “Elogio da Loucura”, de Erasmo de Rotterdam.. O livro é semelhante a um discurso, no qual o autor intitula-se Loucura e, sob o pretexto de convencer os cidadãos de que é uma importante divindade, disseca vários paradoxos sociais, os quais julga influenciar:
“Um se apaixona perdidamente por uma mulherzinha, e, quanto menos correspondido, tanto mais acesa se torna sua paixão amorosa; outro casa-se com o dote e não com a moça; outro prostitui a própria mulher, vendendo-a ao primeiro que encontra; outro, finalmente, agitado pelo demônio do ciúme, espia como um Argos a conduta da esposa. E que coisas estranhas não se dizem e fazem quando morre um parente próximo? Chega-se ao ponto de pagar a pessoas que finjam chorar e gesticulem como cômicos. Quanto maior é a alegria experimentada pelo coração, tanto maior é a tristeza que o rosto apresenta, o que deu origem ao provérbio grego: ‘Chorar na sepultura da madrasta’. Este tira o quanto pode, seja de onde for, e dá tudo de presente à própria barriga, com o risco de morrer de fome depois de satisfeita a gulodice; aquele põe toda a sua felicidade no ócio e no sono; há alguns que, preocupados sempre com os negócios alheios, descuram inteiramente dos próprios interesses; vêem-se os que contraem dívidas para pagar as dos outros e, quando se julgam ricos, verificam que estão falidos; há os que vivendo pobremente, não conhecem outra felicidade senão a de enriquecer os seus herdeiros...”
Apesar de ter sido publicado pela primeira vez em 1509, Paris, a abordagem ainda é atual. É surpreendente o fato de que em quase 500 anos, os costumes continuam parecidos, alguns são até explicáveis: as contradições do amor, por exemplo. Antes que o caro leitor esbraveje, quero adiantar que sou contra o casamento interesseiro, prostituição da esposa, o ciúme doentio...,quero defender a tese “...quanto menos correspondido, tanto mais acesa se torna sua paixão amorosa...”.
Ora, vivemos em constante conflito entre a razão e a emoção. É inerente ao ser humano. Quem nunca foi traído pelo coração que atire a primeira pedra! (por favor, uma pedra de cada vez, não consigo desviar...). Sinceramente, sinto medo de fazer tal sugestão, pois vivemos sob a constante vigilância e julgamento. Temos a falsa impressão de que a emoção está associada ao instinto; este, ao animal e este não usa terno e gravata nem pode ser promovido no emprego e ganhar maiores salários, ser reconhecido como um cidadão evoluído.... Desta forma, ao querer entender a emoção através da razão, não encontramos uma resposta lógica, aliás, a única lógica é a ilogicidade de tal tentativa.
Por isso, amar, não ser correspondido e acender ainda mais a paixão é explicado pelo fato do amor não ter explicação racional e ponto final. Se Camões não conseguiu definir sem utilizar paradoxos, quem somos nós pra tentar criar qualquer esboço? Se mesmo assim, os matemáticos dos sentimentos quiserem achar alguma fórmula racional, que procurem na seção de “hormônios” em algum livro de Fisiologia! E sentirão orgulho por serem apenas um monte de matéria orgânica que, disposta harmoniosamente, sofre reações químicas e vivem, sentem, amam...
Portanto, aos diabos os comedidos, os chatos intelectualóides, os tubos de ensaio ambulantes, porque nós, seres humanos (e com orgulho!), preferimos o claustro do amor à liberdade dos insossos. Viva a Loucura!
Escrito por Luiz da Silveira Neto às 17h17
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Boas Vindas
Maternal, jardim, pré-escola... Bons tempos! Quando sentávamos no chão e brincávamos com massas de modelar, rabiscávamos as folhas com giz de cera e, após a distração tipicamente infantil, vivenciávamos "Chão de Giz". Por vezes pegávamos aquele caderninho encapado com um plástico quadriculado e seguiámos o modelo que a "tia" havia nos passado, sempre sob suas ordens doces e ao mesmo tempo enérgicas (modo de expressão peculiar das professoras desse período): - Siga o exemplo! - Faça o risquinho com capricho! - Que porcalhão! (ouvia muito isso...) - A bolinha precisa ficar mais redondinha!
A linguagem era tão mais fácil... Se no Ensino Fundamental alguém ousasse dizer que a bolinha não está perfeitamente redonda, certamente seria repreendido, afinal de contas, uma bola é redonda, se não for, não é bola e ponto final! No Ensino Médio, seria digno de agressões físicas, psicológicas... onde já se viu tamanha barbaridade? Já estávamos aptos a dizer a área, o volume, o diâmetro, o raio (que o parta) daquela forma geométrica que a tempos atrás era a tão simples bolinha. O professor de gramática certamente faria um risco ovóide ao redor daquela expressão e com tinta vermelha escreveria "PLEONASMO", deixando as folhas posteriores marcadas até as próximas encarnações. Amigo leitor, entre as fendas sinápticas de sua cabeça existe alguma dúvida de como seja uma bola não-redonda ? Se a resposta for positiva, sinto informar-lhe que foi enquadrado ao limitado mundo das regras, do concreto, que de tão sólido às vezes vira pó, tamanha força de coesão. O leitor que visualiza uma bola oval seja bem-vindo ao mundo da Abstração. Está convidado para participar da nossa busca à tão cósmica piração. Que Erasmo de Rotterdam esteja entre nós!
Escrito por Luiz da Silveira Neto às 00h20
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